Manifestantes confrontam policiais munidos de flor. Foto: Rodrigo Soares

A mídia nacional sobre as manifestações turcas e brasileiras

Nos últimos dias, todos têm acompanhado as manifestações na Turquia e no Brasil. Com motivações culturais, econômicas, políticas e sociais distintas, as ações nos dois países são alvos da cobertura da mídia brasileira (e internacional). O que me saltou à vista, de fato, é o modo como os jornais nacionais têm tratado os dois movimentos. Sem desejar exaustão, pincelo alguns pequenos exemplos do que se tornou evidente para mim.

Charge de Marco Marilungo

Consumindo as publicações em O Globo, Estadão e Folha sobre os protestos na Turquia, podemos perceber como ele é tratado de modo polido pela mídia nacional. Iniciado em 27 de maio, a repercussão internacional veio apenas quatro dias depois. A manifestação no Parque Gezi, localizado na Praça Taskim em Istambul, aconteceu por causa de uma proposta de reformulação da praça – propunha-se a construção de um shopping. A derrubada de árvores foi o estopim. A crítica se ampliou para o Partido da Justiça e Desenvolvimento e Recep Tayyip Erdogan, primeiro ministro da Turquia. Por sua vez, as matérias seminais em O Globo, Estadão e Folha sobre a manifestação em São Paulo demonstravam o tom de como seria a cobertura vindoura – embora, nos últimos dois dias, tenha se modificado um pouco, graças à ampla circulação da violência policial contra os participantes e até contra os jornalistas. O protesto tinha como alvo o aumento da tarifa do transporte público na cidade.

A diferença na cobertura dos dois movimentos foi enorme. Na Turquia, colocava-se sempre em questão a “repressão” da polícia contra um “protesto pacífico“. A construção narrativa da maioria dos textos nos dava a ideia de que o enfrentamento teve início após as ações truculentas da polícia, ou seja, a culpa era da polícia por criar a situação de embate. Por causa única deles os manifestantes foram obrigados a contra-atacar. O abuso foi tanto que houve até intervenção internacional, com os EUA pedindo respeito à liberdade de expressão na Turquia. Erdogan, alvo da manifestação, fez questão de culpar a imprensa internacional e as redes sociais (por vezes contestadas por “criar” um revolucionário do sofá) por aquela violência.

Movimento em São Paulo fecha a Avenida Paulista. Foto: Daniel Teixeira_AE
Movimento em São Paulo fecha a Avenida Paulista. Foto: Daniel Teixeira_AE

O protesto no Brasil, por sua vez, transformou São Paulo em uma “praça de guerra“, criando o “confronto mais violento” sobre aumento de passagem já visto no país (culpa dos participantes, não da polícia). A polícia foi obrigada a intervir para “conter o avanço” (afinal, o inimigo ganhava território) de quem promovia aquela guerra. O confronto (e não “repressão”) ocorreu por causa das ações dos manifestantes que obrigaram a polícia a reagir e a utilizar todo o seu arsenal em um embate de forças (iguais?). A Folha, mesmo publicando sobre a prisão de um de seus repórteres, continuou com o seu discurso de culpar os manifestantes e não a polícia pelo embate violento, como pode ser percebido na estrutura narrativa do texto e no link relacionado. Enquanto na Turquia o representante político recuou um pouco (o shopping não será mais construído), o prefeito de São Paulo Fernando Haddad disse que o valor da tarifa permanecerá e que não negocia “em situação de violência“.

As matérias são construídas, no caso do protesto brasileiro, sempre depreciando o ato, explicando como os “vândalos” obrigaram a polícia a usar a força, justificando toda a truculência observada. Quando acessamos as primeiras publicações nos jornais citados, é difícil identificar qual era a reivindicação; aliás, a intenção foi deixada de lado, com a mídia esquecendo os empresários e tudo o que estava por trás do movimento, não propiciando em momento algum informação qualificada. De modo oposto, a cobertura inicial sobre o protesto turco enfatiza sempre a causa dos ativistas (não baderneiros) e a repressão realizada pela polícia. Ironicamente, as imagens (fotos e vídeos) mostravam o inverso. No Brasil, quase não encontramos os “atos de vandalismo” que justificassem (?) a violência empregada e citada nas matérias: pichação de ônibus e muros, lançamento de coquetel molotov, de placas de trânsito e de pedras, além da destruição da cidade (até víamos o resultado, porém, o “flagrante” nunca era realizado, aliás, até era, mas os atores pareciam ser os policiais). Na Turquia, por outro lado, vimos imagens comprovando a repressão da polícia (conforme dito nas publicações), mas também diversos incêndios proporcionados pelos ativistas. Tratamos aqui de modo abrangente as imagens que mais apareciam, pois havia de toda a sorte.

Policial atira spray de pimenta em cinegrafista armado com câmera. Fonte: Rodrigo Paiva_AE
Policial atira spray de pimenta em cinegrafista armado com câmera. Fonte: Rodrigo Paiva_AE

Este texto foi escrito após leituras de matérias no dia 11 de junho, quando ainda havia um número de publicação possível de se acompanhar. Dois depois, encontramos muitas matérias sobre os assuntos, principalmente sobre à manifestação contra o aumento da tarifa do transporte público no Brasil, que iniciou em São Paulo e se espalhou para outras cidades do país, como Rio de Janeiro e Porto Alegre. Muitos casos de jornalistas agredidos foram divulgados, não apenas o da Folha de S. Paulo, mas o do portal Terra, da revista Carta Capital, entre outros. Chegou-se ao cúmulo de prender um jornalista e vários manifestantes pelo porte de vinagre, sob a justificativa de que pode ser utilizado para fabricar bombas (não sabia que MacGyver estava no protesto). Na verdade, além de ser colocado no preparo dos alimentos, o vinagre reduz os efeitos do gás lacrimogêneo jogado pela polícia.

Manifestantes confrontam policiais munidos de flor. Foto: Rodrigo Soares
Manifestantes confrontam policiais munidos de flor. Foto: Rodrigo Soares

Não estamos condenando ou acusando os manifestantes na Turquia, a intenção foi apenas observar como a mídia brasileira tratou, de modo tão diferenciado, os dois protestos. Por que realizar uma cobertura tão distinta? Por que as causas do movimento em São Paulo não são debatidas, enquanto na Turquia ganharam notoriedade? O que estava por trás das manifestações? Ficou evidente a falta de informação qualificada e o excesso de cobertura enviesada, a fim de garantir os interesses de uma parte da população.

ATUALIZAÇÃO com vídeos

Arnaldo Jabor ataca manifestantes brasileiros e defende os turcos

Policial quebra própria viatura para incriminar manifestantes

Repórter da Carta Capital é preso por portar vinagre

Polícia ataca imprensa mesmo após sua identificação

Manifestantes munidos da voz gritam “sem violência” e policiais atacam

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