A Voz Brazil

A Voz Brazil e os seus (tel)espectadores

A Voz Brazil

Não assisti à versão brasileira do The Voice. Talvez, eu não devesse confessar isso tão prematuramente, contudo, praticamente tudo o que sei li na minha linha de tempo do Facebook. Mesmo sem muita vontade, era impossível não se atualizar das informações sobre os participantes, os técnicos e as músicas. Após o resultado da final, que ocorreu um dia depois do feriado natalino, as pessoas não conseguiram segurar os dedos e a rede social de Zuckerberg deve ter sido um dos locais preferidos para descarregar todo o ódio possível. De haters, todos nós temos um pouco.

Baseado nos comentários, o cearense Sam Alves, o vencedor, realmente “canta melhor” (como os americanos gostam de avaliar: atinge muitas notas, consegue variação entre elas, faz melismas e tudo mais) do que os seus concorrentes – ou a sua rival, pois todos citavam apenas a paraibana Lucy Alves e eu não sei se tinham outros. Ela emociona mais (levou a família para tocar com ela, não foi?) e representa melhor o Brasil e a brasilidade, ou algo do tipo, seja lá o que isso signifique. Este argumento, todavia, não se deve ao nome – Lucy me parece tão estrangeiro quanto Sam -, ao sobrenome – ambos compartilham o Alves – ou ao local de nascimento, os dois são nordestinos. O sobrenome de origem portuguesa/europeia parece adequado aos candidatos nordestinos com nomes estrangeiros, fenômeno corriqueiro na terra dos “Maicon Jequison” e “Allysson”.

Lucy e Sam Alves

Por outro lado, recentemente, assisti às últimas edições do The Voice e The X-Factor, ambos dos USA, e os estrangeiros (embora Sam seja filho desta pátria) de lá eram exaltados, não questionados pelas suas origens ou formações. A jamaicana Tessana Chin venceu o The Voice e, embora cantasse em inglês, possuía um sotaque e uma malemolência própria, algo elogiado incontáveis vezes. O porto-riquenho Carlito Olivero, do The X-Factor, cantava em inglês e em espanhol, embora todos preferissem ouvi-lo em sua língua materna e que ele demonstrasse sempre sua “latinidade”, com todas as ideias preconcebidas que essa categoria carrega. Carlito, inclusive, chegou a final por essa “peculiaridade”, afinal, como foi muitas vezes ressaltado, sua voz não se comparava a dos outros candidatos.

Uma boa parte dos que criticaram a americanização do vencedor em A Voz Brazil – quer dizer, The Voice, pois o nome da franquia se mantém original, somos apenas uma “versão brasileira” – fez comentários vexatórios (por que não classistas?) do modo como Daniel cantou em outra língua. O inglês dele não deve ser tão bom quanto o dos meus colegas, alunos da Cultura Inglesa, CCAA e Wizard. Talvez, o cantor sertanejo não tenha cursado nem um Open English para praticar your pronunciation. Ajudaria se aproximar de Joel Santana, pois o técnico aprendeu a se comunicar em inglês em poucos meses, uma façanha. Essas atitudes não me parecem tão diferente, guardando as devidas proporções, do preconceito linguístico, explanado no livro de Marcos Bagno. E algumas dessas mesmas pessoas não gostaram quando o produtor Jack Endino achou estranho/ruim que uma banda brasileira, da Paraíba, cantasse em “inglês” – afinal, ele não entendia uma palavra sequer. Será que podemos argumentar o mesmo com nossos colegas lusófonos?

Além de tudo isso, o programa passava na TV Globo, criticada sistematicamente pela maioria que não concordou com a escolha do vencedor de A Voz Brazil. Não entendo tamanha revolta. Já não seria esperado que não fosse do gosto deles? E, como sempre recordam, o veículo foi financiado inicialmente pelo capital estrangeiro. Tudo em casa! Reitero, não assisti ao programa, tudo o que está escrito aqui é ignorantemente absorvido pelo que li, sem tanto desejo, no Facebook. Desse modo, não sei se o vencedor tem sotaque americano, se cantou apenas música em inglês, se outros fizeram o mesmo, realmente, sou incapaz de exercer um juízo de valor mais abalizado. Porém, tudo às vezes me parece tão surreal que imagino se a Rachel Sheherazade falasse algo semelhante ao que todos reclamaram; diriam que é senso comum e que a moça não tem nada na cabeça, nádegas na cabeça.

3 thoughts on “A Voz Brazil e os seus (tel)espectadores

  1. Também nada vi nem ouvi.Vejo muito pouco TV,e esse formato de “choiceX chance”penso ser muito exibhition.Mas,achei interesssante sua colocação a forma como vc. aborda a questão da identidade nordestina,por exemplo.Valeu.

  2. Então, eu particularmente torci e votei muito na Lucy Alves, puramente por ela ser minha conterrânea, mas verdade seja dita, no quesito de quem canta melhor eu acho que o Sam Alves canta muito (ele cantou muito em inglês, mas pelo que eu vi foi por escolha da Claudia Leite, quando ele escolheu uma música, foi em português), a revolta de muitos é porque o apresentador Tiago Leifert falava muito sobre “escolher a nova voz que represente o Brasil”, e ai como a Lucy Alves só cantou músicas não somente em português, mas também com direito a sotaque nordestino, sanfona e músicas composta por compositores na maioria da vez nordestinos, as pessoas se identificaram como a “nova voz que represente o Brasil”. Mas resumindo: apesar de gostar e ter votado na Lucy Alves, o Sam mereceu a vitória.
    A proposito, tinha mais outros dois finalistas que não só não foi mencionando no post, mas também quase não foi mencionado nas redes sociais após a vitória do Sam, que são: Pedro Lima, vulgo Bigode grosso e Rubens Daniel =)

    • Acho que aí é um ponto importante. O povo tem falado que ele ganhou e colocando como se fosse apenas imposição da cultura americana, vitória do estrangeirismo… contudo, ao que me parece, ele era muito talentoso, tanto quanto os outros – ou até mais. Mas não sei, nunca vi ou ouvi rs

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