O riso do opressor

Fábio Porchat é um dos poucos humoristas dessa “nova geração” que não fala apenas bobagem. Entenda, não é porque discordo de alguém que ela diz besteira, mas assim considero quando não se usa argumentos do nível, por exemplo, de Rodrigo Constantino ou Danilo Gentili. Mas há alguns dias, vi que Porchart havia defendido que se pode fazer piada de tudo, embora o foco sejam os opressores e não os oprimidos – ele não usou essas exatas palavras, mas a ideia era essa. Na ocasião, citou situações racistas e sexistas, não lembro se homofóbicas também, afinal, quem já viu alguma apresentação dele, sabe que isto é recorrente; ser gay parece algo depreciativo em seus shows. A propósito, na maioria das apresentações brasileiras de stand-up, toda a misoginia é destinada aos gays e às mulheres (vide o programa República do Stand-up).

Na sua coluna no Estadão, ele relaciona fatos totalmente dispares, como o fato de Rafinha (título do texto) achar que o fundo do poço de SUA carreira tenha sido apresentar um programa na Rede TV e um comediante ofender uma pessoa de um grupo minoritário, já marginalizado e discriminado o suficiente. Para Porchat, em nenhuma das duas ocasiões um humorista deveria ser processado – embora reconheça, a contragosto, esse direito numa sociedade democrática como a nossa.

Processar alguém que te acha feio é um salto muito grande”, diz Porchat.

Ele desconsidera que um comediante, em um espaço privilegiado, expõe e ridiculariza um indivíduo a partir de suas crenças preconceituosas – o que só as estimula e as perpetua. Ou se pode comparar o lugar ocupado por Danilo Gentili com o da feminista que segurava um cartaz numa manifestação contra estupro e que ele resolveu agredir (verbalmente) por não considerá-la bonita? E, obviamente, pouco importa se a moça se encaixa nos padrões de beleza aceitos por uma parcela da sociedade e nos quais o humorista se apoia.

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Contudo, para Porchart, parece que isso conta, tendo em vista que em certo momento do texto ele diz: “Às vezes você PRECISA ouvir que está gordo para começar a emagrecer. Do que ADIANTA o gordo processar quem o acusou de estar acima do peso e CONTINUAR comendo churros de café da manhã?”. Como ele acha que se pode ofender um gordo (por que é ofensa?) ou qualquer outra minoria por não se enquadrar em algum padrão que o comediante entenda como aceitável? E ainda acha ruim ser processado por isso! Mas o humorista só o faz porque se apoia no que uma parte da sociedade acredita e defende; também somos culpados?

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