Jornalismo se repete entre tragédia e farsa*

Muitos consideram uma das maiores tragédias recentes da história brasileira o Golpe de 1964, primeiramente militar, hoje civil-midiático-empresarial-militar. Se em 2004, nos 40 anos da intervenção, o apoio civil se tornou evidente, em 2014, nos 50 anos, além das empresas, o campo midiático se destacou como alicerce dos mais de 20 anos da Ditadura Militar (vale a leitura do livro recém-lançado de Juremir Machado). Os grandes jornais, de hoje e da época, como Estadão – que assumiu ter apoiado o Golpe e depois feito oposição -, O Globo – que já fez mea culpa em editorial recente e foi parar até no Jornal Nacional – e Folha – da qual a CNV confirmou a história dos carros emprestados pelo jornal aos agentes do governo – contribuíram para a instauração dessa tragédia no país.

Porém, não contentes em serem atores daquela tragédia de 1964, vivemos hoje uma farsa na qual os jornais voltam a estar envolvidos. As manifestações contra a presidenta Dilma Rousseff marcadas para o dia 15/03 (hoje) ganharam uma dimensão em alguns desses veículos que não se coaduna com o que se percebe nas ruas do país. Tudo bem, São Paulo é um mundo reacionário à parte, mas não é o Brasil. E, apesar de chavões e exageros, entendemos o jornalista Mauro Donato ao demonstrar essa ‘farsa’ no Diário do Centro do Mundo (DCM):

A velha mídia está embandeirando pelos protestos do próximo dia 15. (…) os jornais há várias semanas, diariamente, têm dado como certo que este é um “evento” ao qual se “deve” comparecer. Colunistas, editoriais, reportagens, martelam o tema insistentemente. (…) Estão alertando previamente sobre o próximo dia 15 como “o evento do ano” ao qual é “preciso” engajar-se. É uma apologia ao impeachment”.

Folha divulga calendário de "atos contra Dilma". Fonte: DCM
Folha divulga calendário de “atos contra Dilma”. Fonte: DCM

A Folha, na página A6 do caderno Poder de 10/03, divulgou como “agenda” os “atos contra Dilma”. A imagem circulou na rede após ser publicada (e ‘denunciada’) no DCM. O Estadão se apropriou bem dos recursos de geolocalização do jornalismo digital para mostrar onde ocorreriam os protestos pelo país. No momento dos protestos, O Globo, Estadão e Folha destacaram as manifestações na página principal com uma atualização contínua. Uma cobertura digna de qualquer grande evento (midiático).

Da tragédia, eles já se arrependeram, agora é esperar passar a farsa, os anos e obtermos novas desculpas.

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Para finalizar, nos últimos dias, a lista com o nome de empresários da mídia com contas no HSCB da Suíça se tornou pública. No entanto, embora alguns colegas jornalistas e professores tenham esbravejado nas redes sociais, O Globo – em parceria com UOL/Folha – não se esquivou do envolvimento dos seus patrões.

* Não entendeu o título? É um bom momento para ler o 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx.

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