Comemorar, verbo ineficaz

No Brasil, comemorar não significa nada e não possui nenhum impacto na sociedade. Após as manifestações que testemunhamos em 15/03, não seria exagerado tamanho aforismo. Antes, contudo, cabe um entendimento. Para muitos, comemorar possui um aspecto somente positivo. E, infelizmente, não me refiro apenas ao senso comum, pois já vi pesquisadores de Comunicação se renderem a esse equívoco. E não precisaria ir longe, lá nos historiadores franceses afeitos à terminologia, pois uma rápida pesquisa no dicionário Michaelis nos diz que comemorar, do latim commemorare, é um verbo transitivo direto com dois significados:

  1. Trazer à memória, fazer recordar
  2. Solenizar a recordação de algo

Se em 2014, comemoramos os 50 anos do Golpe Militar, em 2015, comemora-se os 30 anos da redemocratização brasileira. Não bastassem filmes e jornais enfatizando especialmente a primeira data, a Lei nº 12.528 de 2011 – mas regulamentada em 2012 por meio do Decreto nº 7.724 – permitiu a criação da Comissão Nacional da Verdade, que durante dois anos investigou os crimes cometidos contra os direitos humanos, sobretudo, no período da Ditadura (civil-midiático) Militar (1964-1985). Após todas essas recentes recordações dos tempos sombrios que vivemos durante pouco mais de 20 anos, é inexplicável que em 15/03 ainda se clamasse (uma minoria?) por intervenção militar. É (quase) inexplicável como alguém não se incomode em estar ao lado de quem levanta essa bandeira. Por isso, o aforismo: as comemorações não significam realmente nada para a sociedade brasileira (uma pequena parte?), esses momentos de “fazer recordar” não representam nada por cá.

Os países europeus cometeram tantas atrocidades no decorrer dos tempos – desde violações contra seus próprios conterrâneos até colonizações, escravidão e guerras que envolveram o “mundo inteiro” – que nos faltam dedos para elencar a quantidade de grupos exterminados. Talvez, isso faça da comemoração uma rotina em países como França e Alemanha. Eles parecem viver em um eterno mea culpa. No Brasil, ao contrário, temos uma percepção de que não há desculpas e vergonhas. E quando encontramos alguns arrependimentos – como falei na postagem anterior sobre os grandes jornais -, eles rapidamente se “desmancham no ar”*.

* Mais uma oportunidade para ler Marx.

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